Óculos de Ver

Para uma jovem caldense de 20 anos, torna-se difícil ficar indiferente... Aqui põem-se os óculos para analisar despreocupadamente os factos mais interessantes do nosso Portugal!

2007-02-08

Referendo sobre o aborto: Reflexões e... sugestões!!

Pois é voltei!
Como achei que já estamos tão próximos da assustadoramente parola época de Carnaval, achei que já ficava mal o meu último post ser relativo ao NATAL...
E como ando sempre fora de horas, só agora, uns 3 dias antes do referendo, é que venho dar o meu bitaite sobre o Aborto.
Muito terão a mesma opinião do que eu: já estou farta de ouvir falar do referendo há mais de de 2 mês. Até porque decidi com convicção a minha opção de voto há uns 3 ou 4 anos.
Como o voto é secreto, ficam já todos os 2 leitores assíduos do blog a saber que voto SIM.
Mas tenho andado a sentir alguma compaixão pelos ardentes defensores do NÃO. É que realmente aqueles argumentos já só convencem analfabetos, beatas e betinhos.
Os analfabetos (e tenha-se bem assente que a literacia não é so saber juntar letras - falo de analfabetismo funcional, a incapacidade de interpretar a informação), que infelizmente não são nada poucos, não têm cultura suficiente para questionar qualquer argumento que seja: votam sem perceber sequer no que estão a votar realmente.
As beatas (grupo geral em que incluo os religiosos fervorosos) engolem a "cassete" do padre como se o próprio Deus lhes falasse. E segundo os padres, um feto de 10 semanas já sabe rezar o Pai Nosso e corta as próprias unhas dos pés. Levam para as missas fotos de bebés com 7 meses de gestação e dizem aos fiéis que votar SIM os vai matar a todos, tipo Holocausto Maternal. È claro que o rebanho (engraçada a aplicabilidade real do termo - que metáfora belíssima) fica chocadíssimo, imagina o "bebé" de 10 semenas , acabado de ser arrancado do útero, a chorar e a gritar pela mãezinha enquanto o médico saca de um bisturi para o degolar. Parece uma imagem exagerada mas acreditem que é mais ou menos esta a campanha que se dá em muitas missas de Portugal.
Os betinhos (incluem-se todos aqueles senhores de penteado ao lado que votam PP e Partido Monárquico, e respectivas esposas de cabelo armado - aqueles que pagam à "Caras" para ir às suas Quintas tirar umas fotos e fazer uma entrevistas) são talvez os mais engraçados. Julgam-se de "boas famílias" porque os seus apelidos são (supostamente) ligados por "e" ou "de", e acham-se os detentores dos Bons Costumes e da Boa Moral, à boa maneira da nobreza decadente do século XVIII. É claro que a estas famílias nada lhes custa manter o conservadorismo e uma imagem imaculada: quando as suas filhas adolescentes engravidam, são os primeiros a viajar até Espanha para abortar e até lhes abrem as pernas na marquesa, se for preciso. Até aproveitam e dão um passeiozinho por Madrid.
Ora, vistos os grupos pelo Não, ainda fica muita gente de fora (Ufa!). Porque realmente, or agumentos não dão para mais. Como eu sou uma pessoa que até costumo torcer pela equipa mais fraquinha, venho pôr algumas reflexões que podem ajudar a desenvolver a argumentação do Não, para que possa fazer um mínimo de sentido na sociedade real em que nos inserimos.
Se querem que as pessoas votem Não, então vão ter de expor alternativas para situações como:
- Grávidas toxicodependentes, que se não abortarem vão ter bebés com inúmeros problemas de desenvolvimento e a mesma toxicodependência.
- Grávidas alcoólicas - se não sabem como é o bebé de uma mãe alcoólica, procurem no Google "Síndrome fetal alcoólico" e descubram a negra realidade.
- Grávidas com graves problemas psicológicos, incapazes de proporcionar uma infância equilibrada a uma criança.
- Grávidas adolescentes, uma dúzia de anos mais velhas do o feto que carregam. Que educação pode uma criança dar a outra criança?
- Grávidas que já têm 15 filhos, e que só continuam a engravidar porque não têm dinheiro nem sítio onde ir buscar métodos contraceptivos. Os outros filhos já estão a morrer à fome; mas vem aí mais um porque não há "guita" para pagar um aborto clandestino.
- Gravidezes completamente indesejadas e incomportáveis para a mãe, que se vai escondendo como pode e no dia do parto deixa o bebé num contentor.
... Hummm... e isto são só alguns exemplos... De facto o Não tem uma tarefa difícil. Sim, a ideia de "vamos criar alternativas para estas mães poderem ser felizes com os seus bebés!" era muito bonita, se vivessemos em Utopia, não existisse aquecimento global nem crime, e todas as crianças fossem felizes e tivessem um Lar. Já houve um referendo sobre o Aborto em que o Não venceu, e eu não vi nenhuma ajuda nova para estas mulheres... (desiludam-se: o não significa ficar tudo na mesma).
Se querem mesmo criar alternativas, devem aliar a "Defesa da Vida" à "Defesa do casamento e adopção homossexual"! Reparem: existem muitas crianças a viver em sofrimento junto a famílias completamente incapazes. Se o Não quer fomentar as mães a não abortar e a felicidade das crianças, às crianças não desejadas deverão ser atribuídas novas famílias que as amem. Tendo em conta que a maioria dos casais heterossexuais não recorre à adopção porque defende os seus genes e quer filhos próprios, resta assim casar todos os homossexuais e tentar que eles adoptem todas as crianças em risco do país - ao menos estes casais não têm ilusões sobre reprodução e muitos até querem filhos! Se querem obrigar as mulheres a ser mães, ao menos podiam assim fingir que se preocupam com o desenvolvimento saudável e feliz dessas crianças. Boa ideia, não?? Fico à espera da proposta no Parlamento.

2006-12-01

É Natal!! (há mais de mês e meio...)

Ainda agora começou Dezembro e eu já não posso com o Natal. E este cenário já se tem repetido nos últimos anos. Em finais de Outubro já o Fórum Coimbra parecia uma versão altamente rasca de um casino de Las Vegas, com todas aquelas luzinhas piscantes e bolas coloridas capazes de provocar cefaleias aos mais susceptíveis. Os paizinhos já andam todos em pânico a pensar que tipo de pedaço de plástico colorido é que vão oferecer aos filhos e aos sobrinhos este ano. Tem as normas da CE? A DECO aprova? Ou será que a Mariazinha, com toda a sua força dos 2 anos e meio, vai dar um golpe de Karaté nesta barbie, desfazendo-a em mil pedaços? Se calhar é melhor não, ainda sufoca com um fio de cabelo... é melhor optar por algo seguro... mas como isso até é caro, acho que vou ao Chinês comprar um brinquedo de origem duvidosa!
As câmaras municipais fazem valer o dinheiro dos contribuintes e enchem os centros das cidades e das vilas com mais luzinhas piscantes, que devem o tornar o Natal dos accionistas da EDP muito mais generoso.
E por favor, não me lixem!: "Muito obrigado... e obrigado é MERCIIIIIIIIII...!" - que mal fiz eu para ter de apanhar com coisas destas na televisão?! Por mais que eu queira escapar, não dá... à menor distracção lá aparece uma melodia Merci, ou um anúncio dos anos 80 do Ferrero Rocher, com o Ambrósio tão repetido em anedotas ordinárias - ou até uma Ticha Penicheiro num anúncio extremamente estranho do Kinder Bueno (respondam-me a uma dúvida existencial, é ela que canta no anúncio??!)
Isto já para não falar nas super bonecas mijantes, nos bonecos bué da maus que partem tudo, nas mega maletas consultório que curam qualquer nenuco (e mais bem equipadas que a maioria das salas de Centro de Saúde)... e a Floribella... essa penetra da mente das crianças, com os seus karaokes, as suas florzinhas, as suas roupinhas cocós... O que vale é que daqui a uns dois meses até as crianças se vão acabar por fartar de todo este marketing e da novela foleira, e depois do entusiasmo não se vai ouvir falar dessa actriz pseudo-fofucha durante bastante tempo.
Podia continuar por mais tempo, mas estou a ficar aborrecida com a minha própria conversa.
Tanto entusiasmo com o Natal... nem percebo porquê! É que nem o Papa tem andado preocupado com isso! Ninguém o tem ouvido falar de Natal pois não?! Se calhar está tão farto como eu. Ou se calhar está mais preocupado em não levar com uma bala no meio da testa. Mas eu acho que é a primeira hipótese. Papa, se me estás a ouvir, manda aí um comment e eu saberei que não estou sozinha nesta luta.

Bom, Feliz Natal para todos. E não se fala mais deste assunto!!

2006-11-12

A escolinha é tão fixe, mamã!!

Ao contrário do que acontece em países desenvolvidos e com um sistema educativo de sucesso, as nossas crianças passam cada vez mais tempo na escola, de tal forma que a única coisa que fazem quando chegam (finalmente!) a casa é adormecer em cima da sopa e comportarem-se como os zombies da "Noite dos Mortos-vivos". E isto começa cada vez mais cedo... e as 230 horas semanais de escola aliadas à exigênciga de precocidade nas aprendizagens querem fazer das crianças máquinas de armazenamento de informação, e das escolas uma produção em série de meninos prodígio em todas as áreas. Pronto, já que é assim, e visto que não tenho pretensões a ministra da educação, apresento com toda a modéstia algumas propostas para um plano de actividades pré-escolares. Não sei, talvez isto até seja serviço público. Tenho de falar com o provedor da RTP, ele deve saber.

TURMA "passarinho sabichão" - DOS 3 AOS 4 ANOS DE IDADE

7:30 - A cozinha divertida
Preparação da receita de crepes com doce de frutos silvestres

9:00 - Pequeno-almoço

9:03 - Desenho
Discussão: A revolução artística do Dadaísmo - arte ou capricho?

11:00 - "Noddy na Terra dos brinquedos"
Adaptação do jogo para sistema Linux

12:30 - A cozinha divertida
Preparação de prato macrobiótico

13:30 - Almoço

14:00 - Música
Orquestração de excertos de "Aïda", de Verdi

16:00 - Desporto é divertido
Torneio de xadrez inter-pré-escolas
Críquete (nível Avançado)

18:00 - Sesta

18:05 - Desenho
Aprofundamento da técnica de sfumato

19:00 - Matemática
Implicações práticas do teorema de Pitágoras

20:00 - Lingua Portuguesa
Retrato social em "Crime e Castigo", de Dostoiévski


(Brincar? Isso é para maricas.)

2006-09-29

Mini-mercado

Na era dos Colombos, dos Carrefoures maiores que a área totoal do estádio do Benfica (incluindo estacionamentos) e do consumo uniformizado, nada melhor que relembrar o velho e tradicionalíssimo mini-mercado.
Tenho ouvido falar que as tascas estão em extinção, mas - sejamos honestos - por mais típicas e pitorescas que nos possam parecer, acabam por ser uma espécie de casino: mantêm-se e aproveitam-se da desgraça alheia. Os bêbados à porta até podem parecer cómicos, mas quase todos matam lá as horas dos seus dias por não terem vida para lá da porta da tasca. Mas atenção: não critíco as tascas nem as culpo pela desgraça mundial... os bêbados resistirão à extinção da tasca (eu até conheço um que se enfrasca à porta do Pingo Doce...).

No meio deste emaranhado de ideias, o que eu queria dizer é que nesta sociedade de estandardização de costumes, o mini-mercado é uma lufada de ar fresco (embora com aroma de bacalhau seco).
O meu namorado (se eu estivesse num programa do Goucha e tivesse menos 6 dentes, mandava-lhe agora "muito muitos beijinhos e vamos casar e ter um cão e tal") mora agora num bairro típico em Coimbra. Daqueles que cheiram a petingas fritas, e com vizinhos da frente que ouvem o cd do Quim Barreiros todos os dias (a sério). Tenho então tido contacto com o mini-mercado da rua. Gosto muito daquilo, mas agora não vou lá muito. Pronto, a verdade é que cometi um dos pecados mortais do mini-mercado.
De maneira que foi assim: comprei lá um chourição embalado (eles não tinham para vender ao peso) e logo ao saír da lojita, vi que o prazo de validade já tinha acabado há um mês. Devem estar a pensar "não! ela não se atreveu!não pode ser!" mas é verdade: eu fui lá dentro reclamar, com todo o carinho e cuidado que é possível utilizar numa situação destas. Claro está que só faltou à senhora de bata e com pré-obesidade mórbida ficar verde. Gritou "MAS ISTO AINDA ESTÁ BOM!!!"... e depois de eu dizer que já tinha tido umas más experiências e preferia não arriscar... atirou-me com o dinheiro para a mão. Depois fugi porta fora sem olhar para trás. Aquilo foi um David contra Golias, mas a única vitória do David foi não ter passado uma noite a vomitar pedaços de chourição. Porque a fortalhaça senhora passa os dias abancada à porta do mini-mercado, sabe a vida, os horários e as rotinas de toda a gente da rua... E cada vez que eu me aproximo da casa, ela perfura-me através dos seus óculos de fundo de garrafa, como quem diz. "Aqui nunca hás-de comprar nem um paposseco fresco, nem um melão docinho escolhido por mim ... e para ti, nunca hei-de ter troco!".
Agora penso... porque raio começei eu a defender os mini-mercados no início deste texto??

- Mais de metade dos produtos costumam estar fora da validade
- Nunca somos bem atendidos (a menos que sejamos da família ou velhos conhecidos, e eles lhes contemos a nossa vida toda)
- Não conseguimos comprar nada que não tenha uma camadona de pó ou uma teia de aranha
- Não têm pudor em pendurar um bacalhau numa garrafa de lixívia aberta, ou de pôr as natas na mesma prateleira dos penso higiénicos

Mas de facto... o mini-mercado tem aquela mítica!! Como o saquinho de água à porta para afastar as varejeiras e os produtos que obviamente foram comprar nos hipermercados para revender. E é tão bom precisar de uma lata de ervilhas e só precisar de dar 3 passos para a ir comprar... É muito positivo ajudar o comércio tradicional, nem que seja só por preguiça.
Quanto a mim... quando voltar a coragem, vou tentar reconquistar a indiferença da senhora da bata. Quero voltar a fazer parte deste fantástico universo. Só esperemos que ela não leia este blog (sem ofensa meus senhores, sem ofensa!!)

2006-07-17

Um carinho para a geração de 80

Este pequeno texto é escrito em especial para todos aqueles que, como eu, nasceram no coração dos anos 80. Fui inspirada por um mail que recebi onde falava deste tema, e onde dizia que era um milagre estarmos vivos, pois passámos os nosso anos de bebés a lamber berços que eram pintados com tinta de chumbo. De facto, e por mais incrível que possa parecer aos pais dos dias de hoje, nós conseguimos crescer sem comer Danoninhos, e ser felizes só com dois canais de televisão e o Windows 3.1. Afinal o que é preciso é amor e muita brincadeira...
A geração de 80 são os jovens adultos de hoje, por isso vale a pena fazer uma retrospectiva de alguns factos interessantes que eu não deixarei apagar das vossas memórias (para o melhor e para o pior...)

Os Jogos sem Fronteiras
Os meus olhos brilhavam de alegria quando via os jogos sem fronterias. Para uma criança de 6 anos nascida nesta época, o suprasumo do divertimento estaria na Disneyland, mas também naqueles senhores que se atiravam para a piscina com fatos de esferovite. As bolas de cores, as quedas aparatosas sem dor, os jogos de equipa cheios de engenhocas maradas. Como eram divertidos os Jogos Sem Fronteiras! Ainda mais comentados pelo Eládio Clímaco, esse estranhíssimo senhor de lenço ao pescoço, com voz-off melodiosa.

O Buéréré... com a ANA MALHOA
Sei que muitos de vós evitam este tema, e já mentiram aos vossos melhores amigos com o medo da vergonha. Mas eu sei que vocês também viram o Buéréré, esse magnífico programa de variedades, com uns desenhos animados pelo meio. E lá andava a grande, a magnífica Ana Malhoa, com menos 3 quilos de peito e 13 buracos, aos pulos com o boireré e cantando as suas músicas... "Sabes que começou no a... (a,a,a) e a seguir vem o e (e,e,e)..." -- SIM EU SEI QUE VOCÊS SE LEMBRAM. E ja pensaram como essas singela menina (sempre pirosita, mas outrora também singela) anda agora a lançar fotos pseudo-eróticas suas num site?! Ah os tempos mudam... Só tenho pena que ela agora esteja a ficar mais parecida com um travesti insuflado do que a adorável Aninha que encantava as crianças.

Marcadores e canetas Molin
Fomos uns privilegiados... Pudémos fazer a escola primária sempre acompanhados pelo nosso fiel estojo de marcadores Molin. Uns tinham só 12, outro já se afoitavam com um conjunto de 24... outros meninos enchiam a sua mega-mochila com um malote de marcadores molin de todos os tons possíveis (e ainda uns 12 ou 13 repetidos, que ninguém reparava). Eram os marcadores que mais desenhos aguentavam e que a mais dentadas resistiam sem se desmancharem e pintarem a boca toda dos meninos. Fiéis marcadores. Nunca me esquecerei do vosso laranja "tom de pele", única caneta que me permitia pintar a cara, mãos e pernas dos meus bonecos (ainda que parecessem todos ter apanhado um escaldão de solário).

Rua Sésamo
Outro grande privilégio da nossa geração. Um programa extremamente bem construído, divertido e didáctico para as crianças. Já para não falar de uma Alexandra Lencastre ("Guiomar") em início de carreira. O Becas e o Egas estarão sempre no nosso coração (quem é que também se lembra do episódio no lago -- Aaaaaaah... Peixe peixe peixe peixe!)

As nossas fotografias
Haverá alguma geração com umas fotografias de infância mais embaraçosas e divertidas do que as nossas? Dificilmente. Os penteados dos nosso pais, a decoração da nossa casa, as golas grandes e as rendas nas meninas, os padrões aberrantes nos calções e camisolas dos meninos... É como se todos estivessem mascarados, mas posando para as fotos como se andassem todos os dias assim vestidos (que era a realidade!). Cada vez que vejo as minhas fotos de infância tenho umas 3 ou 4 gargalhadas certas. Não há melhor.

Podia continuar por muito mais tempo mas ja deu para ficar com uma ideia... não tínhamos internet nem brinquedos de luxo, mas já podemos ter alguma nostalgia dos "bons velhos tempos" de infância...

Apartamentos Vs. Vivendas


Em primeiro lugar peço desculpa a todos os meus visitantes assíduos (lolol) por esta minha falta em tantas semanas. Mas durante os exames não tive grande espírito para pensar em assuntos tão importantes para a Humanidade como este que hoje desenvolverei.

Toda a vida morei num apartamento, e devo dizer que é muito do meu agrado. E ainda me dizem que morar numa vivenda é que é bom... não me parece. Lembro-me logo daquelas janelas todas para limpar, as osgas a entrarem pelas janelas dos quartos, as cortinas de fitas nas portas para evitar a entrada das moscas (tipo entrada do talho, com um desenho de um papagaio e uma palmeira) e os cães da vizinhança à solta, doidos por saltarem a nossa vedação e tirarem um bife das nossas coxas. Já para não falar das moradias próximas do mato, onde há sempre um vizinho que tenta fazer uma queimada num dia quente de Verão; depois acabam todos a acartar baldes de água para ajudar os bombeiros, às cinco da manhã ("ai a minha rica casinha!").

Os apartamentos têm os seus problemas (no Verão a água custa muito a chegar até ao meu andar!mas alto lá que eu continuo a tomar banho), mas têm diversas vantagens.
Em primeiro lugar, são bem mais pequenos que uma vivenda. E toda a gente sabe que mais espaço significa maior acumulação de tralha e lixo. Assim, já não tenho de me poreocupar com uma garagem onde já não cabe nenhum carro, pois está atulhada com a mobília velha da avó (que um dia pode dar jeito), a colecção dos "Diários de Notícias" e respectivos suplementos desde 1981 (que um dia podem dar jeito) ou as caixas de cartão e respectivas esferovites onde vinham embalados os 350 electrodomésticos da casa (um dia ainda podem fazer falta).
Em segundo lugar, não temos a obrigação de nos oferecer para receber a família em nossa casa TODOS os Natais, passagens de ano e sardinhadas, só porque temos a casa maior. É aquele tipo de festas em que muita gente se oferece para ajudar o anfitrião, mas depois só o enervam com 10 perguntas por minuto porque não sabem onde, quando ou como ajudar. Acabam então os "convidados da boa vontade" a atafulhar a cozinha e o hall de entrada, andando para trás e para frente durante intermináveis minutos, com o mesmo prato de rissóis na mão. Assim é mais fácil dividir o "prazer de dar uma festa" pelas diversas casas da família.
Em terceiro lugar, mas não menos importante, vem a questão da intimidade. Eu ainda sou da velha guarda dos moradores de apartamentos, porque passei a minha infância a brincar com a vizinha do 3º esquerdo (ela chamava-me de vaidosa e eu ficava muito triste). Hoje fala-se muito da falta de relacionamento entre vizinhos de um mesmo prédio - parece que quanto mais perto moram, mais isolados estão. Mentiras meus amigos! Podem não saber como se chamam os vizinhos do lado, quantos filhos têm ou qual a razão do cheiro a mijo que sai da porta deles... mas só num prédio estabelecemos uma tal relação com os nossos vizinhos que sabemos exactamente a que dias da semana, a que horas e que barulhos emitem quando estão nos seus "momentos íntimos". Haverá maior intimidade do que esta? Ouve-se aquele bater ritmado na parede, uns gemidos ao longe e já sabem: "Lá estão os Gouveias outra vez no bem-bom... esta semana já é a terceira vez, deve andar a estrear as mamas novas que comprou para a à mulher."
Um dos grandes problemas que enfrentam os prédios nos dias de hoje é a segurança... O prédio pode situar-se num condomínio fechado, ter vigilância 24h e videoporteiro a cores... Mas basta alguém tocar à campaínha e dizer "Dica da Semana" com sotaque brasileiro que tem portas abertas em qualquer empreendimento de luxo. Ah pois é...

2006-06-06

Jogos de azar

"Só sai a quem joga!"
Quantas vezes não ouvimos já esta frase? Não me estou a referir aos casinos, com as suas slot machines cheias de luzes, ameaçando a toda a hora oferecer um milhão de euros, que na verdade demora uns seis meses ou mais a ser entregue.

A verdade é que o português está viciado no Euromilhões e nos jackpots do Totoloto. Põem as cruzinhas no boletim enquanto se imaginam a esfregar notas de 500 euros na barriga. A esperança enche-lhes o coração e gastam com o maior prazer os seus euros só para entregar um boletim que em 99% das vezes só lhe oferece... prejuízo. E isto repete-se semana após semana, sem ressentimentos. Já pensaram como o fenómeno do Euromilhões é interessante? Existem várias teorias psicológicas acerca da tomada da decisão, e a decisão de gastar dinheiro com este tipo de jogo sai da norma. Se eu souber que só tenho 1% de probabilidade de ser bem servida no restaurante x, não vou com certeza almoçar lá. Mesmo que eu conheça um amigo da avó do meu primo em 3º grau que conseguiu ter a melhor refeição da vida dele lá.

Aconteçe exactamente o oposto com o jogo. A probabilidade de ganhar bons prémios é MUITO inferior a 1%, muito pouca gente conhece um feliz contemplado com o grande prémio, e mesmo assim são aos milhares aqueles que não falham a sua doação semanal de 10 euros para a Santa Casa da Misericórdia. Bem, se for pela solidariedade é uma coisa... mas sejamos honestos! Quem joga não o faz pelos pobrezinhos! No máximo fá-lo para evitar ser pobrezinho como eles. E quem sabe poder comprar um Aston Martin para ir mostrar àqueles ex-emigrantes invejosos lá da terra.
O que sai mais são os prémios pequenos. E quando saem ainda dão mais esperança aos gastadores nos jogos. Os 12 euros ganhos com as duas estrelas e um número são a melhor notícia da semana. Isto porque, por alguma razão, se esqueçem dos 50 ou 60 euros que já tinham gasto esse ano, sem qualquer lucro.
Vejamos então onde nos leva a vontade de ganhar milhões:

Se o Sr. X gastar 8 euros por semana no Euromilhões durante 10 anos, isso prefaz um total de... (ora, 52 semanas por ano... oito vezes dois e vai um... noves fora...)
Um total de 4160 EUROS!!!
Olhem se este senhor tivesse posto o dinheirinho numa conta... Não era a sorte grande mas já dava para comprar uma TV LCD e o resto do home cinema, para ver a SportTv com os amigos. Isto já para não falar no mercado das acções e outras oportunidades de investimento que, apesar de arriscadas, dão melhores possibilidades de ganhos.

Eu sei que a oportunidade de recebermos milhões em dinheiro fácil nos ofusca a visão, fazendo esquecer esta série de pormenores importantes. Sim, confesso que também já joguei. Mas conhecer as probabilidades faz-me ficar mais agarrada aos meus 2 euros, que já davam para me lambuzar num belo gelado com topping de chocolate, ao final de uma tarde de praia...

2006-05-30

A era da desinfecção

Uma das conquistas do último século foi conseguida ao nível da criação de hábitos de higiene. Ou seja: As pessoas tornaram-se lavadinhas. É por isso que hoje em dia as pessoas já não lançam os seus dejectos pela janela, nem achamos muita piada se virmos um piolho a passear na testa do nosso melhor amigo. Temos água canalizada, máquinas de lavar e sabão. Bravo.

Só que, como aconteçe em diversas situações, não soubemos achar um ponto óptimo de higiene. Os sabonetes íntimos e o wc pato não chegam... Temos de limpar mais e mais e mais. Já lá vai o tempo do "o algodão não engana"... Agora teme-se não só o pó nojento que insiste em acumular-se nos móveis, mas também os micróbios, os micro-organismos, os ácaros, todo o tipo de bichinhos com os quais sempre convivemos mas que agora parece que se tornaram os nossos piores inimigos... mais temidos que uma nova guerra EUA-Irão.

Entrámos na "era da desinfecção". Sou totalmente a favor no que se refere a estruturas públicas, como os restaurantes ou as suas respectivas casas-de-banho. Não pensem que acho piada se encontrar um pelo duvidosamente encaracolado e grosso a boiar na minha sopa de legumes. Ou se for ao wc e me cheirar a xixi da semana passada. É que agora quer-se tudo desinfectado: os colchões, as alfaces, as bancadas, as maçanetas das portas, as cuecas, tudo. Temem-se as terríveis BACTÉRIAS, vistas como monstros assassinos que nos devoram, nos constipam, nos provocam as alergias, que acabam com casamentos felizes, que matam bebés, provocam o cancro e as hemorróidas, e depois do trabalho feito viajam para a casa do vizinho para também lhe arruinar a vida. Então declaramos guerra! Aspiradores ultra sofisticados para matar a bicharada toda. Desinfectantes e anti-bacterianos na casa toda. Borrifa aqui, borrifa ali.

As crianças são talvez a entidade mais desinfectada. Já não brincam na terra, nem podem dar beijinhos nos amigos: "olha que ficas doente!!!!". Os bebé são quase metidos numa embalagem esterilizada. Até já li algures para lavar as mãos antes de tocar num bebé. Nem ao parque já vão: "aquele pó todo, coitadinhos...".

Higiene sim. Banhinho diário, sim. Lavar a loiça, a roupa e as "partes", sim. Mas não abusemos!!! Todas as gerações anteriores conviveram com essa bicharada e não morreram por causa disso. Pelo contrário.

Sejam lavadinhos e limpem a vossa casinha. Mas não se esqueçam...

- É na infância que ganhamos resistências aos malefícios do meio, muito importantes por exemplo para prevenir alergias. Ganhamos anticorpos enquanto brincamos com os nossos amigos e animais de estimação, no parque ou na rua (eventualmente comendo alguma terra), tornando-nos assim menos susceptíveis a diversos problemas de saúde. O mundo não é um lugar esterilizado, e mais tarde ou mais cedo vamos ser lançados nele. Mais vale irmos ganhando alguma resistência... enquanto se goza a infância.

- As mulheres não devem lavar a zona genital mais do que uma vez por dia, excepto durante a menstruação (se não acreditam perguntem a um ginecologista). A vagina é protegida pela flora vaginal: uma série de microorganismos que nos impedem de contrair infecções variadas. Matem-nos e sofrem as consequências (nada agradáveis). E quanto às "nojentinhas": por mais que lavem, a vagina tem sempre um cheiro próprio. Tal como o pénis. Uma boa lavagem por dia é o que chega.

- Os ácaros vão sempre viver nos nossos colchões. Pelo menos enquanto nós libertarmos pele morta durante a noite, que é disso que eles se alimentam. E vamos sempre libertar pele morta, diariamente, enquanto vivermos... A não ser que durmam de botas, fato macaco e capacete. Não se enganem pelos anúncios a colchões. Ninguém precisa de o trocar de 3 em 3 anos (mas a mundialcasa agradece...).

- Se não fossem estes microorganismos do nosso quotidiano estávamos todos mortos.

Eu gosto muito de estar lavadinha e viver num meio lavadinho. Mas irritam-me que as pessoas se pelem de medo das bactérias, para depois terem filhos obesos, fumarem, comerem fast food 5 dias por semana e não levantarem o rabo nem para caminhar durante 5 minutos... Quando tiverem um enfarte do miocárdio, culpem os ácaros.